quarta-feira, 30 de novembro de 2011

* Evidências neurocientíficas na obra de André Luiz

* Evidências neurocientíficas na obra de André Luiz:
NEUROCIENCIA - Esse é um relato do neurocientista Dr. JOÃO ASCENSO MEMBRO DA
ASSOCIAÇÃO MÈDICA ESPÍRITA CARIOCA a respeito de um trabalho feito pelo Dr.
JORGE MOLL NETO, que embora não seja religioso, conseguiu descobrir com
aparelhagens modernas de ressonâncias pelas neuroimagens em 2002,2011, o que
Calderaro já falava em 1949, na obra Mundo Maior de André Luiz/ Chico Xavier.
Programa Ciência e Espiritualidade 209



Por João Ascenso


O objetivo deste artigo é dar a conhecer, aos espíritas, como a Ciência, particularmente a neurociência cognitiva, provou a tese proposta por Calderaro e explica a André Luiz no livro No Mundo Maior, psicografado por nosso querido Francisco Cândido Xavier.
Nesta obra, Calderaro, no capitulo 3, A casa Mental 9p. 46), refere-se a André Luiz nos seguintes termos: “ No sistema nervoso, temos o cérebro inicial, repositório dos movimentos instintivos e sede das atividades subconscientes: figuremo-lo como sendo o porão da individualidade, onde arquivamos todas as experiências e registramos os menores fatos da vida”. Assim, pode-se considerar que esta é a zona posterior do cérebro.
Calderaro continua: “na região do córtex motor, zona intermediaria entre os lobos frontais e os nervos, temos o cérebro desenvolvido, consubstanciando as energias motoras de que se serve a nossa mente para as manifestações imprescindíveis no atual momento evolutivo do nosso modo de ser”.
Em março de 2008, cheguei ao Brasil para trabalhar com meu orientador de doutorado em Neurociências, o Dr. Jorge Moll Neto, no Centro de Pesquisas em Neurociências Cognitiva da Rede LABS D’OR, um laboratório privado de pesquisa experimental em estudos que cruzam a pesquisa cientifica em psicologia experimental com a neurociência cognitiva e comportamental, com a metodologia cientifica da imagiologia cerebral, conhecida como FMRI, ou ressonância magnética funcional.
Tendo vindo da universidade de Londres, aonde cheguei a realizar o mestrado em Neurociências por ter pedido transferência para o referido laboratório de pesquisa da Rede LABS D’OR, no Rio de Janeiro, e abandonando a Europa definitivamente, tomei contato com os estudos de Dr. Jorge Moll Neto realizados no Instituto Nacional de Saúde (National Institutes of Health- NIH) dos Estados Unidos.
O Dr. Jorge Moll Neto, no seu pós-doutorado no NIH, realizou experimento de doação a organizações de caridade em que os sujeitos, dentro da maquina de ressonância magnética funcional, tinham que optar entre receber dinheiro ou doar dinheiro para organizações de caridade, em várias tentativas experimentais controladas estatisticamente e com monitoramento das regiões cerebrais ativadas durante essas tarefas.
Este estudo foi publicado em 2005, na Proceedings of the National Academy of Science dos EUA (MOLL e colegas, 2005), tendo sido o primeiro estudo neurocientífico sobre decisões morais da historia da neurociência cognitiva.
Não é à toa que foi convidado para ser o mais jovem membro da Academia Brasileira de Ciências da Historia do Brasil, com apenas 37 anos.
O Dr. Jorge Moll Neto explorou as bases neurais do comportamento pró-social, nesse experimento, e mostrou evidencias de ligação entre as decisões altruístas e as funções do sistema de recompensas cerebrais e o sistemas de afiliação. No estudo, os sujeitos experimentais tinham que tomar decisões anônimas reais, dentro de uma maquina de ressonância magnética funcional, em três condições experimentais.
Na primeira condição, tinham que decidir entre receber dinheiro ou não, de forma a compreender qual a ativação cerebral responsável pela recompensa monetária pessoal.
Na segunda condição, tiveram que decidir entre realizar uma doação não-custosa a uma organização de caridade (em que se pedia aos participantes que simulassem uma doação, ou seja, que não perdessem dinheiro verdadeiro) ou uma oposição não-custosa contra uma organização dedicada ao aborto ou a uma associação de armas (essa doação implicava a intenção de prejudicar essas organizações dedicadas ao aborto ou à produção de armas).
Finalmente, a terceira condição foi semelhante à segunda, mas pediu-se que os participantes realizassem uma doação custosa a uma organização de caridade (em que perderiam dinheiro na realidade) ou para se manifestarem contra uma organização de aborto ou de produção de armas.
Os resultados desse estudo foram os seguintes: na primeira condição, chamada de recompensa monetária pessoal, a maior parte dos participantes optou por receber dinheiro e os correlatos neurais foram a área tegmental mesolímbica, o striatum dorsal e o striatum ventral (MOLL e colegas, 2006).
Essas regiões são conhecidas como o sistema de recompensa no cérebro humano, ou seja, são também, ativadas quando o ser humano come chocolate ou pratica sexo, popularmente conhecida como zona cerebral do prazer (MOLL e colegas, 2006; SCHULTZ, 2006).
Na segunda condição, os participantes que optaram por fazer uma doação não-custosa ou uma oposição não-custosa ativaram as mesmas regiões que a condição anterior, ou seja, a área tegmental mesolímbica, o striatum dorsal e o striatum ventral.
Para além dessas regiões, e diferentemente da primeira condição, mas similar à terceira condição, verificou-se a ativação do córtex subgenual [incluindo a área de Brodmann (BA) 25].
O outro resultado interessante foi o fato de que o striatum ventral (em conjunto coma região septal) foi ativado com mais intensidade em comparação com a primeira condição, a da recompensa pessoal. Essas regiões são responsáveis pela afiliação aos outros.
Na terceira condição, os correlatos neurais da doação custosa e da oposição custosa foram os mesmos da segunda condição, mais uma região chamada córtex orbito frontal lateral (no caso da oposição custosa) e o córtex frontopolar (no caso da doação custosa) I gyrus frontal medial.
O que também se revelou interessante foi a alta correlação entre os participantes que ativaram essa ultima região 9(córtex frontopolar e gyrus frontal medial) e o nível de engajamento e capacidade de sacrifício para defender uma causa social.
Isso sugere que o córtex pé-frontal anterior está relacionado com a capacidade de sacrifício real que estamos dispostos a fazer por uma causa moral. Em outro estudo, Jorge Moll e colegas demonstraram que o córtex frontopolar é intensamente ativado quando os participantes realizam julgamentos morais, diferentemente dos julgamentos não-morais, em que essa ativação neural não se verifica (MOLL e colegas, 2001).
O que este experimento demonstra é que a mesma região ativada quando sentimos prazer sensorial é ativada quando praticamos o bem.
O estudo prova cientificamente a assertiva de Francisco de Assis de que “é dando que se recebe”, e efetivamente o cérebro recebe uma recompensa mais intensa quando é feita uma doação que implica sacrifício pessoal, em comparação com a condição em que recebemos dinheiro. Essa recompensa não advém de receber nada, mas sim de doar alguma coisa a alguém.
Se utilizarmos a linguagem da Psicologia Experimental, pode-se afirmar que quando queremos obter dinheiro ou reputação social por alguma ação, possuímos uma motivação extrínseca ou externa para realizar a ação.
Por exemplo, se eu trabalhar com motivação apenas para ganhar dinheiro, o móvel da minha ação é externo, ou seja, o dinheiro é o que constitui a minha recompensa. No nível psicológico, designa-se que um individuo atua estimulado por motivação extrínseca.
Mas se fizermos algo sem procurar nenhuma recompensa por isso, designa-se que o individuo atua influenciado por uma motivação intrínseca, e que o ato de fazer essa ação, só por si, é internamente recompensador.
É o mesmo que dizer que somos movidos por uma motivação intrínseca, por um valor ou algum sentimento moral que nos impele a realizar uma ação moral em beneficio de alguém. Esse experimento demonstra que essa verdade é não apenas filosófica e espiritual, mas também cientifica.
O que é mais intrigante é o fato de que, para além do sistema mesolímbico (conhecido pela zona neural de prazer) ter sido ativado quando os participantes decidiram por fazer a doação, outra região neural muito importante foi ativada: o córtex pré-frontal anterior, particularmente o córtex fronto-polar e o gyrus frontal medial.
Esta região do córtex pré-frontal anterior é exatamente a região mencionada por Calderaro a André Luiz. Segundo Calderaro, (p. 46): “nos planos dos lobos frontais, silenciosos ainda para a investigação cientifica do mundo, jazem materiais de ordem sublime, que conquistaremos gradualmente, no esforço de ascensão, representando parte mais nobre de nosso organismo divino em evolução”.
Isso significa dizer que o Dr. Jorge Moll Neto, além de ter provado cientificamente a tese de que “mais vale dar do que receber”, com base na neurociência cognitiva, demonstrou também que a região do córtex pré-frontal anterior é a responsável pelas ações (decisões concretas de doações morais) e sentimentos morais (sentimento moral de compaixão) mais custosas e elevadas (MOLL, 2005).
Moll Neto também desenvolveu uma teoria alternativa à teoria sobre a função do córtex pré-frontal. A teoria dominante sobre o córtex pré-frontal defende que essa região é responsável pelo processo cognitivo e ativo da informação (revisão em MOLL e colegas, 2005).
O Dr. Jorge Moll explica que, para além dessa função ativa do córtex pré-frontal, a região é também responsável por arquivar seqüências de eventos com relação ao futuro.
Na sua teoria, designada Modelo de Seqüências de Eventos representacionais Complexos (event-feature-emotin complex framework- Efec Model), ele defende que, além do processamento cognitivo ativo da informação, o córtex fronto-polar (região especifica do córtex pré-frontal) é responsável por arquivar representações de crenças, valores, sentimentos morais e eventos que são ativados em situações nas quais sentimos compaixão ou apresentamos comportamentos morais elevados.
Para comprovar esse modelo, o Dr. Jorge Moll desenhou o seguinte experimento: ao colocar os participantes em um estado passivo, dentro de uma maquina de ressonância magnética funcional (ou seja, sem nenhuma tarefa ativa), ele lhes apresentou um vídeo de pessoas em sofrimento e verificou que, mesmo em estado passivo, as pessoas ativaram a região orbital e medial do córtex pré-frontal e o sulcus superior temporal, regiões críticas em avaliações morais, que ele designou de sensibilidade moral, distintas para avaliações morais e diferentes de regiões neurais ativadas em avaliações não-morais (MOLL e colegas, 2002).
O estudo provou experimentalmente que essas regiões do córtex pré-frontal não são apenas ativadas quando processamos ativamente a informação cognitiva, mas também quando passivamente observamos o sofrimento alheio.
Isso comprova a teoria do Dr. Jorge Moll de que, além do processamento ativo, essa região contém representações complexas de compaixão, de sentimentos e valores morais elevados (Moll e colegas, 2002). É incrível como a ciência comprova as idéias espíritas! Conclui-se que essas regiões do córtex pré-frontal contem a representação de crenças, valores e sentimentos morais elevados, que são ativados quando passivamente entramos em contato com o sofrimento alheio, quando sentimos compaixão pelo sofrimento alheio, ou quando ativamente realizamos uma ação moral positiva em favor de outrem (MOLL e colegas, 2002), o que constitui um sacrifício pessoal para nós.
Conforme asseverou Calderaro (p. 101): “nos lobos frontais recebemos os ‘estímulos do futuro’, no córtex abrigamos as ‘sugestões do presente’, e no sistema nervoso, propriamente dito, arquivamos as ‘lembranças do passado’”.
É fantástico constatar que os estímulos criados em laboratório pelo Dr. Jorge Moll Neto constituem “estímulos do futuro”, conforme a conceituação de Calderaro.
Ou, ainda, “nervos, zona motora e lobos frontais, no corpo carnal, traduzindo impulsividade, experiência e noções superiores da alma, constituem campos de fixação da mente encarnada ou desencarnada. A demora excessiva num desses planos, com as ações que lês são conseqüentes, determina a destinação do cosmo individual. A criatura estacionaria na região dos impulsos pede-se num labirinto de causas e efeitos, desperdiçando tempo e energia; quem se entrega, de modo absoluto, ao esforço maquinal, sem consulta ao passado e sem organização de bases para o futuro, mecaniza a existência, destituindo-a de luz edificante; os que se refugiam excessivamente no templo das noções superiores sofrem o perigo da contemplação sem as obras, da meditação sem trabalho, da renuncia sem proveito. Para que nossa mente prossiga na direção do alto, é indispensável que se equilibre, valendo-se das conquistas passadas, para orientar os serviços presentes, e amparando-se, ao mesmo tempo, na esperança que flui, cristalina e bela, da fonte superior de idealismo elevado; através dessa fonte, ela pode captar do plano divino as energias restauradoras, assim construindo o futuro santificante. E, como nos encontramos indissoluvelmente ligados aos que se afinam conosco, em obediência a indefectíveis desígnios universais, quando nos desequilibramos, pelo excesso de fixação mental, num dos mencionados setores, entramos em contato com as inteligências encarnadas ou desencarnadas em condições análogas às nossas” (p.62).
“Calderaro nos dá ainda um exemplo de que a estimulação dos lobos frontais pode ativar noções superiores que não estaríamos considerando em determinada situação:” o abnegado amigo colocou as mãos sobre os lobos frontais dela, como atraindo a mente materna para a região mais elevada do ser, e passou a irradiar-lhe tocantes apelos, como se lhe fora desvelado pai falando ao coração. Fundamente sensibilizado, assinalava-lhe as palavras de animo e de consolação, que a afetuosa mãezinha recebia em forma de idéias e sugestões superiores. Notei que a disposição intima da jovem senhora tomava pouco a pouco uma renovado alento”.(p.106)
Uma das formas mais belas de estimular o córtex pré-frontal para a elevação é observarmos o sofrimento alheio e deixarmo-nos sentir a compaixão, além de estimular a reflexão superior sobre os valores espirituais elevados e realizar projetos de elevação individual e coletiva.
O Dr. Jorge Moll Neto é meu professor, orientador de doutorado e amigo, mas não é espírita. E nem suspeitava da explicação que Calderaro deu à André Luiz, publicado na Terra em 1947.
Esta é a prova que a ciência, mesmo sem saber, acaba, com o tempo, comprovando as teses espíritas, mesmo por meio de cientistas materialistas!

Referencias bibliográficas:
...No Mundo Maior...
MOLL e colegas, 2001
MOLL e colegas, 2002
MOLL e colegas, 2005
MOLL e colegas, 2006
MOLL e colegas, 2006
SCHULTZ, 2006

João Ascenso é psicólogo social e neurocientista, formado em Lisboa-Portugal; pesquisador do Laboratório de Neurociência Cognitiva Social e Comportamental da Rede LABS D’OR, Rio de Janeiro; e doutorando em Neurociências pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob a orientação do Dr. Jorge Moll Neto.

Artigo retirado da revista eletrônica SAÚDE DA ALMA.